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Valor Econômico: A imprensa é outra depois deles
Com grande conhecimento da vida atribulada e das relações profissionais dentro das grandes redações e depois de anos de convivência com seus biografados, os jornalistas Paulo Eduardo Nogueira, editor executivo da “Scientific American” do Brasil, e Maria Helena Tachinardi, editora-adjunta da revista “Política Externa”, acabam de dar valiosa colaboração à história da imprensa brasileira. Nogueira é autor de “Paulo Francis – Polemista Profissional”. Maria Helena assina “Roberto Müller Filho – Intuição, Política de Jornalismo”.
São “nomes que revolucionaram e deixaram marcas definitivas na imprensa brasileira, contribuindo definitivamente para moldar sua qualidade e pluralidade”, diz Hubert Alquéres, diretor-presidente da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, que publica os dois livros na sua “Coleção Imprensa em Pauta”.
Tremendamente mordaz e polêmico, ligado em tudo o que se passava no Brasil e no mundo, leitor voraz de livros e revistas, adorado por uns e execrado por muitos, o carioca Paulo Francis (1930-1997), batizado Franz Paul Trannin da Matta Heilborn, foi uma figura singular da cultura brasileira.
Jornalista de esquerda, um dos fundadores do jornal “Pasquim”, em 1969, trabalhou em grandes veículos como crítico, analista político, cronista, como a revista “Senhor” e os jornais “Última Hora”, “Folha de S. Paulo” e “O Estado de S.Paulo”, além de atuar como comentarista da Rede Globo – em 1993, estava entre os primeiros integrantes do “Manhattan Connection”, até hoje no ar, mas pelo canal GNT. Tinha um estilo direto e objetivo de escrever e falar e uma dicção propositadamente jocosa, imitada por muitos telespectadores do programa. Além disso, escreveu obras de ficção – estas ganharam capítulo específico na biografia.
Nogueira, que também já trabalhou em vários veículos impressos, realizou pesquisa minuciosa para refazer a trajetória de Francis, com quem teve bastante contato nos anos 90, quando editava a seção de Internacional de “O Estado”, além de conversar frequentemente com a mulher do biografado, a também jornalista Sônia Nolasco.
No livro, que tem como prefácio um texto de Millôr Fernandes, companheiro de Francis no “Pasquim”, e ao fim um ensaio fotográfico produzido por Bob Wolfenson na década de 90, Nogueira refaz a trajetória do intelectual desde sua infância e juventude, marcada pela morte da mãe quando ele tinha 14 anos, passando por seu ingresso no jornalismo, sua luta contra a ditadura – durante a qual foi preso quatro vezes -, sua emigração para os Estados Unidos em 1971, sua posição diante da política internacional e econômica, até sua morte, aos 66 anos, nesse país.
Já Maria Helena Tachinardi contou com duas longas entrevistas de Roberto Müller Filho, concedidas em 2008 e 2009, para traçar sua história no jornalismo e no setor público e, principalmente, falar sobre seu trabalho de reformulação da “Gazeta Mercantil” nos anos 70, a ponto de consolidá-lo como uma das principais publicações de economia e negócios do país. Além de ouvi-lo, a autora acompanhou o processo de perto: ocupou vários cargos importantes no jornal – entre 1980 e 2004. A “Gazeta” enfrentou sérios problemas financeiros e deixou de circular em maio do ano passado.
Sob a chefia de Müller, a partir de 1974, a “Gazeta” alcançou o prestígio que o fez ser considerado o “Financial Times” brasileiro da época. Como ele conseguiu isso? “Os princípios básicos sobre os quais Müller se apoiou são mais fáceis de enunciar do que de cumprir: obsessão pela precisão; preocupação em ouvir todos os lados de uma questão e em colocar a informação de maneira isenta”, relata no prefácio o hoje diretor da CDN Análises e Tendências, Matías M. Molina, que foi correspondente, diretor editorial e editor-chefe da “Gazeta Mercantil”.
Nascido em Ribeirão Preto (SP), em 1941, Müller formou-se em química industrial, trabalhou na Companhia Siderúrgica Paulista (Cosipa) e era do Partido Comunista na Baixada Santista em 1964, quando foi preso por sua militância contra a ditadura militar. Libertado em pouco tempo, ele se mudou para São Paulo – período escolhido por Maria Helena para iniciar o livro. Na capital paulista, o químico virou jornalista da “Folha de S. Paulo” pelas mãos de Claudio Abramo e passou por algumas outras publicações, como “Veja”, “Realidade” e “Visão”.
Além de jornalista, Müller ocupou cargos públicos, entre eles o de chefe de gabinete de Dílson Funaro no Ministério da Fazenda e secretário de Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo. Atualmente, é editor da versão brasileira da revista “Harvard Business Review”, que figura entre as melhores publicações da área de administração e negócios.
Conta Maria Helena que os depoimentos de Müller foram acompanhados pelo jornalista e advogado Antonio de Gouveia Júnior, que também contribuiu para o sucesso do jornal e ajudou a rememorar os fatos. “Esta reportagem é um reencontro com a história do Brasil em quase cinco décadas e uma forma de celebrar os bons momentos que marcaram a trajetória da ‘Gazeta Mercantil’ enquanto perdurou seu projeto inicial”, escreve ao apresentar a obra.




















